A Divina Comédia

A Divina Comédia

(Canto XXXIII, Dante Alighieri)

 

Virgem Mãe, por teu Filho procriada

Humilde e sup’rior à criatura

Por conselho eternal predestinal!

 

Por ti se enobreceu tanta a natura

Humana, que o Senhor não desenhou-se

De fazer de quem criou, feitura.

 

Não seio teu amor aviventou-se

E ao seu ardor, na paz da eternidade,

O germe desta flor assim formou-se.

 

Meridiana Luz da Caridade

És no céu! Viva fonte de esperança

Na terra és para a fraca humanidade!

 

Há tal grandeza em ti, há tal pujança,

Que quer sem asas voe a seu anelo

Quem graça aspira em ti sem confiança.

 

Ao mísero que roga ao teu desvelo

Acode, e, às mais das vezes, por vontade

Livre, te praz em súplica valê-lo.

 

Em ti misericórdia, em ti piedade,

Em ti magneficência, em ti se aduna

Na criatura o que haja de bondade.

 

Este mortal, que da ínfima lacuna

Do mundo até o empíreo, passo a passo,

Viu quando a vida espiritual reúna,

 

Te exora auxílio ao seu esforço escasso:

A mente sublumar lhe seja dado

A Suma Dita no celeste espaço.

 

Eu que, no meu ardor, nunca aspirado

Hei mais por mim o que em prol dele peço

Meus rogos todos alço esperançado.

 

Te digna conseguir o véu espesso

Da humanidade sua despareça,

E assim lhe seja o sumo bem concesso.

 

Depois da alta visão dá que ainda eu peça

Que conserves, Rainha Onipotente,

Sempre pura sua alma emal avessa.