Crime ou castigo?

Crime ou castigo?

Projeto do aborto legal divide evangélicos

Nenhum outro tema chamou mais a atenção por ocasião da passagem do papa João Paulo II pelo Rio, no início de outubro, do que a questão do aborto. Em seus quatro dias de visita, o líder católico fez questão de ser o mais incisivo possível na condenação à interrupção da gravidez, seja lá por que motivos. "O aborto é um atentado contra a humanidade", bradou o santo padre dos católicos, via satélite, para todo o país e para quantos quisessem ouvir. Se na Igreja Romana os fiéis não podem nem pensar no aborto – exceto, é claro, se decidirem bater de frente contra as determinações da Santa Sé –, entre os evangélicos a posição é bem mais flexível. Não é de hoje que os protestantes estão bem à frente da Igreja Católica na questão da sexualidade e reprodução. Enquanto os católicos praticantes ainda se debatem com dramas de consciência quando usam métodos anticoncepcionais artificiais, os crentes já convivem tranqüilamente com pílulas, camisinhas e DIUs há muito tempo. Quando o assunto é o aborto, contudo, a discussão muda de foco – afinal, a própria Bíblia está recheada de passagens a favor da vida. Controvérsias à parte, a verdade é que não é fácil ponderar sobre um assunto em que a realidade confronta-se com as palavras do Antigo Testamento, um dos trechos mais conhecidos de todas as Escrituras: "Não matarás".

A maioria dos líderes evangélicos mostra-se reticente em posicionar-se sobre o assunto. "Somos a favor da vida, como um dom de Deus. Ele é seu doador e somente Ele pode dela dispor", declara o presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, pastor Guilhermino Cunha. No entanto, ele admite situações especiais, como no caso de risco de vida para a mulher. "Somos a favor da interrupção da gravidez para salvar a vida de uma mãe de outros filhos menores, da qual eles dependem, e que ainda poderá gerar outras crianças", pondera. Os presbiterianos chegaram a enviar um documento ao presidente da República, senadores e deputados federais, expressando a posição da denominação. De modo semelhante raciocina o presidente da Convenção Geral das Assembléias de Deus do Brasil, pastor José Wellington Bezerra: "Nossa igreja é cem por cento contrária ao aborto indiscriminado", declara. Mas, é claro, há concessões. "Nós o aceitamos apenas nos casos de estupro e perigo de vida para a mãe. Afinal, é melhor sacrificar o embrião que ainda está se formando do que a mulher." Na mesma trincheira está o pastor J. Cabral, um dos líderes mais respeitados da Igreja Universal do Reino de Deus. Segunde ele, a Universal não aconselha nem estimula a interrupção da gravidez, mas respeita a vontade da mulher nos casos previstos em lei.

Divisão

O pensamento dos pastores reflete bem os resultados da pesquisa Novo Nascimento, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) entre evangélicos do Grande Rio. O estudo revelou que nada menos que 60% dos crentes pesquisados admitem o aborto quando a gestação ameaça a vida da mãe ou foi fruto de violência sexual. É justamente na questão do estupro, entretanto, que a polêmica esquenta ainda mais. Apesar de reconhecer a lei, a Igreja Metodista é mais radical neste ponto. "Há casos especialíssimos onde, a critério médico, o aborto é exigido. Mas condenamos esta prática porque cremos ser ela contrária ao ensino bíblico sobre a vida, que é dom de Deus", argumento o bispo Adriel de Souza Maia, presidente do Colégio Episcopal da denominação, de Belo Horizonte (MG). Já entre os fiéis anglicanos, o aborto motivado por estupro divide opiniões. Enquanto uma ala mais liberal sustenta que a violência do ato sexual forçado justifica uma outra violência – a interrupção da gravidez –, a parte mais conservadora pensa justamente o contrário, acreditando que o aborto é algo ainda pior que o estupro. "Em qualquer caso, todavia, sempre há o apoio pastoral ao fiel", explica o bispo Robinson Cavalcanti, da Igreja Episcopal Anglicana de Recife (PE).

Fiel à tradição de militância social que caracteriza sua denominação, o pastor Mozart Noronha, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, discorda de toda a polêmica causada pela regulamentação do aborto. Embora esclareça que sua igreja nunca se opôs ao que está previsto na lei, desvia o foco da atenção. "Existem problemas muito mais graves, que não têm contado com a atenção das autoridades, como a reforma agrária e a impunidade", opina. "Mais importante do que o aborto é botar mais pão na mesa das famílias brasileiras."

 Revista Evangélica "VINDE" on-line