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Dia de Nossa Senhora Aparecida
Dia 12 de outubro, é feriado nacional. É o dia de Nossa Senhora Aparecida,
venerada pela grande maioria da população como a padroeira do Brasil. Este o
motivo que levou o Governo a decretar o feriado, num reconhecimento público da
repercussão social de uma expressão religiosa. Um feriado, portanto, com
motivações religiosas.
Verdade é
que essa celebração religiosa se dá numa data que já tem outras conotações
históricas e culturais. Dia 12 de outubro recorda o descobrimento da América.
É também o dia da criança, fato que igualmente suscita intensa motivação
junto ao povo brasileiro. Ultimamente o dia foi também escolhido como data
referencial para o “Grito dos Excluídos” a nível continental, numa alusão
à vocação comum dos países do continente americano.
Esta constelação de motivos mostra como a celebração religiosa já
foi colocada num contexto histórico consistente. Não é aleatória a coincidência
da festa de Nossa Senhora Aparecida com o dia da América. Esta devoção tem
fortes vinculações com a negritude e com a trajetória da escravidão em nosso
continente. Uma expressão religiosa só cria raízes profundas e se torna símbolo
eloqüente da cultura popular quando brota de experiências históricas, vividas
com intensidade, e abraçadas coletivamente pela população. Para que permaneça
e consiga direitos de cidadania, a religiosidade
precisa trazer consigo marcas de autenticidade. Certamente não faltam para a
devoção a Nossa Senhora Aparecida, como o feriado nacional do dia 12 quer
reconhecer.
Portanto, a
iniciativa do Governo, determinando este feriado, não é fortuita. Ela tem
fundamento social e político, pela repercussão da festa no conjunto da
sociedade brasileira. E’ aí, nos efeitos sociais, que o Estado encontra os
critérios para se posicionar diante da religião. Não sabe a ele manifestar
preferências ou sugerir opções religiosas. Mas simplesmente constatar as
repercussões da religião na sociedade. E quando forem positivas, se achar
oportuno, pode apoiá-las, como neste caso.
Por isto, o
fato do Governo decretar, por estes motivos, um feriado religioso, não
significa que ele está privilegiando uma religião em detrimento de outras. Nem
implica, portanto, que ele deva fazer compensações, decretando outros feriados
para destacar outras religiões. Pois
assim ele acabaria se posicionando sobre o mérito de
religiões em si mesmas, e não sobre os seus efeitos sociais. O que não
seria de sua competência.
Ao mesmo
tempo, a existência de um feriado religioso encontra novas justificativas, no
contexto da pós modernidade que estamos vivendo, e à luz dos novos fatos que
assinalam a conjuntura deste início de novo século e milênio.
A
religiosidade comparece como elemento indispensável no concerto dos valores que
tecem a vida de um povo. Ela se situa no âmbito das motivações, que dão
sustentação aos compromissos cotidianos, que precisam de energia
para serem levados a bom termo.
Dada a
importância dessas motivações, a atitude correta é respeitar as expressões
religiosas, também na sua diversidade. O feriado é um convite a termos esta
atitude. A falta de respeito é rejeitada vigorosamente pela sociedade, como
ficou comprovado anos atrás, em
episódio emblemático que envolveu a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A situação
atual reforça a urgência de superar preconceitos e
proselitismos.
D. Demétrio Valentini