O Milagre de Aparecida

O Milagre de Aparecida

(Adelmar Tavares)

 

Os homens não tinham peixe

Para o Conde de Assumar.

 

Os barcos desciam nas águas escuras

Do rio deserto... E os barcos subiam

Nas águas escuras do rio deserto...

Tornavam subindo... descendo... a tentar!

Lançavam as redes... puxavam as redes...

E as redes vazias! Sem nada pescar!

 

E os homens não tionham peixe

Para o Conde de Assumar.

 

Domingos Garcia, caboclo valente,

Com os braços de ferro, tocava a empurrar

A triste canoa, sem nada pescar.

Pedro gritava para os companheiros,

Que longe cortavam as águas escuras

Do rio deserto:

 

“Olá, companheiros,

olá canoeiros,

que novas a dar, que novas a dar?”

 

e a mesma resposta caía na noite,

nos barcos vazios, sem nada pescar...

 

Os homens não tinham peixe

Para o Conde de Assumar.

 

João Alves, aflito, já sem esperança

Olhando as estrelas, se pôs a rezar:

 

“Santíssima Virgem, tem pena de mim!...

Rainha Celeste, tem pena de mim!...

És Dona dos peixes que moram nas águas!

Ordena-os que venham encher nossos barcos!

Que um só dos teus gestos nos pode salvar!...

Dá-nos peixe p’ra Dom Pedro

Para o Conde de Assumar!”

 

E a rede atirando, com punho de mestre,

E a rede nas águas se abriu em estrelas.

Caiu... Foi ao fundo... João Alves chorava,

João Alves rezava, tocado de fé...

Puxou de mansinho, que a rede pesava...

“São peixes!” – dizia. “São peixes enfim,

que Nossa Senhora tem pena de mim!”

 

Mas, oh, luz estranha que vem dentre a rede!

É Nossa Senhora que vem dentre a rede

Do pobre, do humilde, feliz pescador,

Que, em louca alegria, se põe a gritar: